Todo início de ano o mesmo ritual: Gartner publica as previsões de gastos globais, McKinsey lança o relatório de adoção de IA, BCG traz os números de investimento em transformação digital. Os CIOs brasileiros leem, compartilham no LinkedIn e começam a montar as apresentações para o board.
O problema não está nos números. Os números são reais. O problema está no que eles não conseguem capturar: o estado atual da TI nas empresas que operam no Brasil, com os orçamentos, os processos e as equipes que realmente existem aqui.
Este artigo cruza o que as principais fontes globais dizem sobre TI em 2026 com o que o IMTIBR mediu em 93 organizações brasileiras. O objetivo não é contradizer as consultorias. É mostrar onde os dados globais ajudam e onde o executivo brasileiro precisa de um instrumento diferente.
Gartner
IMTIBR · 93 org.
IMTIBR
Dois blocos que pautam o mercado global
O ecossistema de inteligência sobre TI é dominado por dois tipos de fonte com funções distintas, que frequentemente são confundidas.
O primeiro bloco são as casas de análise de mercado. Gartner, IDC e Forrester funcionam como bússolas de investimento: oferecem forecasting, taxonomias tecnológicas e guias de compra. São a resposta para a pergunta "quanto o mercado vai gastar e em quê". O Gartner projeta que os gastos mundiais com TI alcancem US$ 6,31 trilhões em 2026, crescimento de 13,5% puxado pela infraestrutura de IA. Para o executivo que precisa calibrar orçamento ou justificar uma decisão de investimento para o conselho, essas fontes são indispensáveis. A maioria opera sob paywall, o que limita o acesso no mercado brasileiro.
O segundo bloco são as consultorias estratégicas. McKinsey, BCG, Accenture, Deloitte e PwC focam na captura de valor e no redesenho operacional. Seus relatórios respondem a "como reorganizar a empresa para escalar a IA" e estão majoritariamente disponíveis de forma gratuita. A McKinsey aponta que 65% das organizações já utilizam IA generativa regularmente, mas que o desafio atual está na clareza da liderança para redesenhar processos e governança. O BCG registra que 94% dos executivos manterão investimentos em IA mesmo sem retornos imediatos em 2026, sinalizando uma aposta de sobrevivência digital de longo prazo.
Analyst Houses — "quanto gastar e em quê"
- Gartner — Forecasting, Top Strategic Trends, CIO Agenda 2026
- IDC — Rise of Agentic AI, AI Spending Guide 2026
- Forrester — Predictions 2026: AI, State of AI 2025
- Acesso majoritariamente sob paywall
- Foco em mercados desenvolvidos (EUA, Europa)
Consultorias Estratégicas — "como reorganizar para escalar"
- McKinsey — GenAI Adoption, Tech Trends 2025, Rewired in Action
- BCG — AI at Work 2025, AI Radar 2026, AI Shifts IT Budgets
- Deloitte — Tech Trends 2026, State of AI in the Enterprise
- PwC — Digital Trust Insights 2026, AI Jobs Barometer
- Acesso livre · Foco em grandes corporações globais
O que essas fontes não conseguem capturar
Ambos os blocos compartilham uma limitação estrutural para o executivo brasileiro. Foram desenvolvidos para realidades de orçamento, regulação e maturidade de processos muito diferentes das nossas. Os surveys globais tendem a sobrerrepresentar empresas de grande porte em economias desenvolvidas, com equipes dedicadas a governança, frameworks consolidados e histórico de investimento contínuo em tecnologia.
O resultado prático é uma distorção de referência. Quando um CIO brasileiro lê que "65% das organizações já usam IA generativa regularmente", a pergunta relevante não é se esse número é verdadeiro globalmente. É se ele é verdadeiro para empresas com o perfil, o porte e o nível de maturidade das que operam no Brasil. E para isso, os relatórios globais não têm resposta.
"Benchmarks internacionais existem, mas foram desenvolvidos para realidades de orçamento, regulação e maturidade de processos muito diferentes das nossas. Pesquisas de consultorias costumam ser pagas, fechadas e com metodologia opaca." IMTIBR — Introdução ao Primeiro Retrato, Edição 2026
O que o IMTIBR mede e por que isso importa
O IMTIBR parte de uma premissa diferente: maturidade de TI não é ter tecnologia. É a capacidade de operar a área de tecnologia de forma estruturada, com processos que funcionam independentemente de pessoas-chave, indicadores que vão além do uptime e continuidade que foi testada, não apenas documentada.
Na edição 2026, com 93 organizações respondentes, o índice médio ficou em 2,53/5,0, posicionando o Brasil no nível Competitivo: base operacional formada, mas ainda carente de integração estratégica. O que os dados mostram em detalhe é mais revelador do que a média.
| Dimensão | Score | Nível | O que o dado revela |
|---|---|---|---|
| Gestão de Serviços | 2,63 | Competitivo | Incidentes são gerenciados. SLAs ainda não são monitorados em 23% das organizações. |
| Operação e Confiabilidade | 2,60 | Competitivo | A dimensão mais consistente. O ponto fraco é a análise pós-incidente, que não virou rotina. |
| Governança de TI | 2,59 | Competitivo | Dimensão âncora: correlação r=0,91 com o índice geral. Quem sobe aqui sobe em tudo. |
| Segurança e Riscos | 2,53 | Competitivo | Controles existem. Plano de continuidade testado ainda é exceção, não regra. |
| Arquitetura e Dados | 2,50 | Em Evolução | 18,5% de zeros em diretriz formal de arquitetura. Projetos de dados ficam sem denominador comum. |
| Alinhamento ao Negócio | 2,40 | Em Evolução | A dimensão mais fraca nas três coletas. 30% nunca mediram o impacto da TI nos resultados. |
Três achados que os relatórios globais não trazem
A comparação entre o que as consultorias globais produzem e o que o IMTIBR captura não é uma questão de qualidade metodológica. É de escopo. Há três padrões que os relatórios internacionais estruturalmente não conseguem revelar sobre o Brasil.
1. O problema não é melhorar processos, é criá-los
Os relatórios globais focam em empresas que já têm processos consolidados e querem escalar. O IMTIBR revela que uma parcela significativa do mercado brasileiro está num estágio anterior: não tem os processos para melhorar. Score zero no IMTIBR não é avaliação baixa. É ausência. Prática inexistente.
30,1% das organizações marcaram zero em indicadores que conectam TI a resultados de negócio. 22,8% marcaram zero em SLAs. Quando um relatório da McKinsey fala em "escalar IA com governança", ele pressupõe que governança básica já existe. Para uma parte relevante das empresas brasileiras, ela ainda precisa ser construída do zero.
Das organizações brasileiras marcaram zero em indicadores que conectam TI a resultados de negócio. Para essas empresas, o desafio não é melhorar a métrica. É criar a prática que a métrica mede.
IMTIBR — Coleta 3 · 93 organizações · Edição 20262. O vale da complexidade: porte médio é o mais vulnerável
Empresas de grande porte têm pressão regulatória e visibilidade executiva que forçam maturidade. Empresas muito pequenas ainda operam com uma pessoa centralizada e conseguem manter consistência. O problema está no meio.
Organizações de 101 a 500 funcionários registram IMTI de 1,87/5,0, o pior resultado da amostra. É o porte em que a organização cresceu, mas a TI ainda não se estruturou para suportar a nova escala. Processos que funcionavam com dez pessoas param de funcionar com cem. E o investimento em estrutura não acompanha o crescimento do headcount. Nenhum relatório global tem benchmark para esse perfil de empresa brasileira.
3. A regulação produz maturidade. Onde ela não existe, a maturidade não vem
O setor financeiro lidera o IMTIBR com 3,49/5,0, com os melhores resultados em Segurança e Governança. A explicação é direta: o Banco Central, a CVM e a LGPD criam obrigações que forçam a estruturação de processos. Maturidade não surge do acaso. Surge de pressão, seja regulatória ou de mercado.
O setor de Educação, com 1,30/5,0, representa o caso oposto: sem pressão externa relevante, sem visibilidade executiva para TI, a maturidade praticamente inexiste. Governança e Alinhamento ao Negócio chegam perto de zero. Um setor que forma profissionais de tecnologia ainda não consolidou estrutura de TI própria. O setor de Tecnologia aparece com resultado contraditório: 2,53/5,0, na média geral, mas abaixo dela em Segurança e Gestão de Serviços. Empresas que vendem estrutura de TI para clientes ainda não organizaram a própria.
| Setor | IMTI | Nível | Fator determinante |
|---|---|---|---|
| Serv. Financeiros | 3,49 | Competitivo | Regulação severa força maturidade em Segurança e Governança |
| Logística | 2,64 | Competitivo | Operação forte, mas Segurança ainda é o maior gap |
| Saúde | 2,62 | Competitivo | Alta variância interna: hospitais grandes vs clínicas sem processo |
| Indústria | 2,57 | Competitivo | Operação sólida, Alinhamento ao Negócio é o maior gap |
| Tecnologia | 2,53 | Competitivo | Vende estrutura para clientes. Abaixo da média em Segurança própria. |
| Governo | 1,99 | Em Evolução | Nenhuma dimensão acima da média. Alinhamento ao Negócio em 1,60. |
| Educação | 1,30 | Em Evolução | Maior lacuna da amostra. Governança e Arquitetura próximas de zero. |
Como usar as duas fontes juntas
A distinção não é entre fontes boas e fontes ruins. É entre fontes com perguntas diferentes.
Os relatórios globais respondem bem à pergunta de direção: para onde o mercado está indo, o que os líderes de tecnologia estão priorizando, qual o tamanho do investimento em IA que os concorrentes estão fazendo. Para montar o argumento estratégico no board, calibrar o orçamento frente ao mercado global ou identificar tendências antes que se tornem obrigação, Gartner, McKinsey e BCG são instrumentos válidos e necessários.
O IMTIBR responde à pergunta de posição: onde a TI da sua organização está hoje, o que está ausente, quais práticas precisam ser criadas antes de qualquer agenda de transformação. Para sair do hype e focar no que é estruturante para a realidade operacional brasileira, o dado local é insubstituível.
"A maturidade de TI não se compra com orçamento ou softwares de última geração. Constrói-se com consistência de processos e alinhamento real com o negócio." IMTIBR — Primeiro Retrato, Edição 2026
O executivo que usa apenas as fontes globais corre o risco de investir na direção certa para um contexto errado. O que os relatórios internacionais descrevem como "próximo passo" frequentemente pressupõe uma fundação que ainda não existe em boa parte das organizações brasileiras. Investir em IA generativa sem indicadores que conectem TI a resultados de negócio é construir sobre areia. Os 30% de zeros nessa prática específica mostram que o problema não é falta de ambição. É falta de base.
O IMTIBR não substitui as fontes globais. Ele preenche o vácuo que elas deixam. Um retrato calibrado para a realidade brasileira, com método público e amostra crescente, é o que permite que o executivo saia da "fumaça do hype" e foque no que é estruturante para a sustentabilidade do negócio.
O índice está aberto em imtibr.com. Cada nova organização torna o retrato mais preciso e o benchmark mais útil para todo o mercado.
Fontes
Referência central nacional
IMTIBR (2026) — Primeiro Retrato: Maturidade de TI nas Organizações Brasileiras, Edição 2026. Relatório metodológico com 93 organizações respondentes, 6 dimensões, 30 práticas, escala 0 a 5. imtibr.com
Casas de análise de mercado
Gartner (2026) — Gartner Forecasts Worldwide IT Spending to Grow 13.5% in 2026. Projeção de US$ 6,31 trilhões em gastos globais com TI.
Gartner (2026) — Top Strategic Technology Trends for 2026.
Gartner (2026) — The CIO Agenda 2026: Agility, Risk-readiness and Tenacity.
IDC (2026) — FutureScape 2026: The Rise of Agentic AI.
IDC (2026) — Worldwide AI and Generative AI Spending Guide 2026.
Forrester (2025–2026) — Predictions 2026: Artificial Intelligence; The State of AI, 2025.
Consultorias estratégicas e de negócios
McKinsey & Company (2024–2025) — The state of AI in early 2024: GenAI adoption and value; Technology Trends Outlook 2025; Rewired in Action: Case collection 2025.
BCG (2025–2026) — AI at Work: Momentum Builds, but Gaps Remain (2025); As AI Investments Surge, CEOs Take the Lead — AI Radar 2026; AI Shifts IT Budgets to Growth Investments (2025).
Accenture (2025) — Technology Vision 2025; State of Cybersecurity Resilience 2025.
Deloitte (2026) — Tech Trends 2026: Da Experimentação ao Impacto; The State of AI in the Enterprise 2026.
PwC (2026) — 2026 Global Digital Trust Insights; The Fearless Future: 2026 Global AI Jobs Barometer.
Notas metodológicas
Metodologia IMTIBR: coleta contínua via Google Forms, escala de 0 a 5, exclusão de respondentes com baixa consistência de dados. Cada prática avaliada pelo próprio profissional de TI da organização. Dados exploratórios, retrato de mercado, não conclusão estatística definitiva.
Acesso às fontes: Analyst Houses (Gartner, IDC, Forrester) operam majoritariamente sob paywall. Consultorias estratégicas (McKinsey, BCG, Deloitte, PwC, Accenture) disponibilizam relatórios de livre acesso.
Daniel Cunha é executivo de tecnologia e fundador do IMTIBR (imtibr.com), o primeiro índice independente de maturidade de TI do Brasil. Contato: contato@imtibr.com