O ITDBr 2025 registrou retrocesso em governança mesmo com orçamentos maiores e mais ferramentas. O IMTIBR confirma o padrão: a dimensão GOV é uma das mais fracas. O nó não é técnico.
Em fevereiro de 2026, a PwC Brasil e a Fundação Dom Cabral publicaram o ITDBr 2025. O índice médio de maturidade digital das empresas brasileiras caiu de 3,7 para 3,6 numa escala de 1 a 6. Não é queda dramática. Mas o que está por trás dela é: a dimensão que mais recuou foi governança.
Ao mesmo tempo em que empresas brasileiras aumentaram investimentos em infraestrutura, avançaram em uso de dados e expandiram adoção de IA, a capacidade de governar tudo isso de forma estruturada e contínua ficou para trás. Mais tecnologia, menos governança. O desequilíbrio tem consequências diretas.
O IMTIBR mede o mesmo padrão pela ótica da TI corporativa. A dimensão GOV — que avalia práticas como planejamento estratégico de TI, alinhamento com o negócio, gestão de portfólio de projetos e monitoramento de resultados — está entre as mais baixas no índice das organizações brasileiras avaliadas.
Existe uma forma simples de saber se uma organização trata TI como centro de custo ou como parceiro estratégico: onde o CIO se reporta. Quando a TI se reporta para finanças, a lógica que prevalece é de corte e contenção. Quando se reporta para o CEO ou tem assento no conselho, a lógica que prevalece é de geração de valor.
No Brasil, o padrão predominante ainda é o primeiro. TI como função de suporte, acionada quando algo quebra, cortada quando o orçamento aperta, ausente das discussões estratégicas onde as decisões que vão demandar tecnologia são tomadas.
O resultado prático é previsível. Projetos de tecnologia aprovados sem alinhamento com prioridades de negócio. Portfólio de iniciativas que cresce sem critério de priorização. Investimentos realizados sem métricas de resultado definidas antes do início. E quando o projeto não entrega, o diagnóstico é sempre o mesmo: "o problema foi na execução de TI", quando muitas vezes o problema foi na governança que deveria ter orientado a execução desde o começo.
A McKinsey mapeou o que diferencia líderes digitais de empresas ascendentes no Brasil. O fator mais relevante não foi tecnologia, não foi orçamento, não foi tamanho. Foi a dimensão de Organização — que inclui estrutura de governança, papéis claros de ligação entre TI e negócio, KPIs de performance monitorados de forma contínua e sistemática.
Líderes digitais capturam a natureza complementar das práticas. Eles não tratam governança, segurança, dados e operações como projetos isolados. Tratam como dimensões interdependentes de um sistema que precisa funcionar junto. Essa qualidade — segundo a McKinsey — desaparece no grupo de empresas ascendentes.
O IMTIBR mede exatamente esse gap. Organizações que pontuam bem na dimensão GOV tendem a pontuar melhor nas demais dimensões também. A causalidade faz sentido: governança é o que transforma intenção em processo, processo em resultado, resultado em aprendizado para o próximo ciclo.
A explicação mais plausível é a velocidade. Em 2025, empresas brasileiras aceleraram adoção de IA, ampliaram infraestrutura de cloud, expandiram uso de dados. Fizeram isso depressa, porque o mercado exigia e a concorrência estava fazendo o mesmo. A governança não acompanha na mesma velocidade porque ela depende de mudança organizacional — de estrutura de decisão, de papéis, de processos — e não apenas de compra de ferramenta ou contratação de serviço.
O resultado é o que o ITDBr 2025 documentou: avanços em infraestrutura e uso de dados, retrocesso em governança e tecnologias de fronteira. Mais capacidade instalada, menos capacidade de gerenciar essa capacidade com consistência.
Essa é a armadilha do crescimento acelerado sem base de governança. As iniciativas se multiplicam. Os resultados ficam abaixo do esperado. O diagnóstico aponta "execução fraca" quando o problema real é ausência de estrutura para priorizar, monitorar e corrigir. E o ciclo se repete no próximo orçamento.
A dimensão GOV avalia: planejamento estratégico de TI formalizado, alinhamento documentado entre TI e objetivos de negócio, gestão de portfólio de projetos com critérios de priorização, monitoramento de resultados com métricas definidas e participação de TI em decisões estratégicas da organização.
É a dimensão que mais impacta o desempenho geral do índice — organizações com GOV alto tendem a ter desempenho superior nas demais dimensões. E é uma das que mais espaço tem para melhora no retrato atual das empresas brasileiras.
Veja onde sua organização está: imtibr.com
Governança de TI não é projeto. É processo contínuo que exige comprometimento da alta administração, estrutura de decisão clara e métricas de resultado que vão além de uptime e tickets resolvidos. Enquanto for tratada como tema exclusivo de TI, vai continuar sendo a dimensão que recua quando a pressão aumenta. O ITDBr 2025 mediu isso. O IMTIBR confirma. A pergunta para cada CIO é: na sua organização, quem é responsável por garantir que TI e negócio estão medindo o mesmo resultado?
Fontes:
PwC Brasil / Fundação Dom Cabral — Índice de Transformação Digital Brasil 2025 (fevereiro de 2026).
McKinsey & Company — Transformações digitais no Brasil: insights sobre maturidade digital.
MIT Sloan Management Review Brasil — O papel da governança em TI na aceleração digital das empresas.
IMTIBR — Relatório de Maturidade de TI, base de 81 respondentes (2025/2026).
Daniel Cunha é executivo de tecnologia e fundador do IMTIBR (imtibr.com). Contato: contato@imtibr.com