Em 2020, o BCG analisou 70 empresas e entrevistou 825 executivos seniores. A conclusão foi que 70% das transformações digitais ficaram aquém dos objetivos. Quando os seis fatores críticos estavam presentes juntos, a taxa de sucesso subia de 30% para 80%. Esses fatores eram: estratégia integrada, liderança comprometida, governança ágil, monitoramento de progresso, talento adequado e plataforma de dados conectada ao negócio.
Dois anos depois, a McKinsey confirmou pela terceira vez que a taxa agregada de sucesso em transformações organizacionais permanecia em 30%. E em 2025, pesquisando 1.491 executivos em 101 países sobre adoção de IA, encontrou que mais de 80% das organizações não viam impacto tangível no resultado operacional, apesar de 78% já usarem IA em ao menos uma função. O fator com maior efeito sobre resultado não era usar a tecnologia. Era redesenhar os processos que a tecnologia suportaria.
Esses números circulam em apresentações de consultoria há anos. O problema é que nenhum deles olha para dentro das organizações brasileiras com o nível de detalhe que permite entender onde a base está cedendo. O IMTIBR tentou fazer isso.
81 organizações brasileiras · IMTIBR 2026
item mais fraco do índice inteiro
em indicadores TI-negócio
O que 2,46 diz que os estudos globais não conseguem dizer
O IMTIBR avalia 30 práticas de TI corporativa em seis dimensões: governança, serviços, operações, segurança, alinhamento ao negócio, e arquitetura e dados. A escala vai de 0 a 5. Com 81 organizações respondentes em três coletas seguidas, o índice médio ficou em 2,46 — nível "Em Evolução", abaixo do limiar de Competitivo.
Isso não é apenas um número. É a tradução prática do que BCG e McKinsey descrevem como o mecanismo central de falha das transformações digitais. Eles dizem que as iniciativas falham por ausência de métricas conectadas ao negócio, falta de governança e dados de baixa qualidade. O IMTIBR mostra onde isso aparece nas práticas reais.
O item mais fraco de todo o índice é "Indicadores TI-resultados de negócio": 1,85/5. Esse número se repete nas três coletas consecutivas, sem subir. Ao mesmo tempo, "TI no planejamento estratégico" marca 2,72. A TI está na reunião. Não produz evidência do que entrega. O gap de 0,87 pontos entre essas duas práticas é o mesmo que a McKinsey descreve como o vetor central de falha: presença institucional sem medição de retorno.
Pior: 34,6% dos respondentes marcaram zero em indicadores TI-negócio. Score zero não é avaliação baixa. É prática ausente. Essas organizações não precisam melhorar o processo. Precisam criar do zero.
"Apenas 21% das organizações com uso de IA generativa disseram ter redesenhado ao menos alguns fluxos de trabalho. Esse é o fator com maior efeito sobre resultado operacional." McKinsey Global Survey on AI, 2025 — 1.491 respondentes, 101 países
A anatomia da falha, em números brasileiros
O relatório da Coleta 3 compara 24 organizações no nível Competitivo com 25 organizações Em Evolução. As cinco práticas com maior gap entre os dois grupos revelam o que separa quem avança de quem trava:
| Prática | Em Evolução | Competitivo | Diferença |
|---|---|---|---|
| Indicadores de disponibilidade | 1,85 | 4,14 | +2,28 |
| Indicadores executivos de desempenho | 1,48 | 3,54 | +2,06 |
| Diretriz formal de arquitetura | 1,41 | 3,32 | +1,92 |
| Novas soluções seguem padrão arquitetural | 1,85 | 3,76 | +1,90 |
| Monitoramento proativo do ambiente | 2,07 | 3,97 | +1,90 |
Nenhuma dessas práticas é tecnologia nova. Todas são processo, governança e integração. É exatamente o que o BCG identificou como os fatores que elevam a taxa de sucesso de 30% para 80%: metas claras, monitoramento de progresso e plataforma de dados conectada ao negócio.
A Gartner prevê que ao menos 30% dos projetos de IA generativa serão abandonados após a prova de conceito. As razões listadas são: baixa qualidade de dados, controles de risco inadequados e valor de negócio pouco claro. No IMTIBR, "Diretriz formal de arquitetura" marca 2,11/5, com 21% de zeros. Sem arquitetura formal, os projetos de dados ficam sem denominador comum. O ciclo que o Gartner descreve globalmente já está acontecendo aqui.
O achado que os estudos globais não têm
A Bain encontrou que programas com ownership dedicado capturam 24% mais valor planejado. A McKinsey aponta que líderes envolvidos são diferencial de sucesso. Ambos descrevem o problema conceitualmente. O IMTIBR quantificou algo que nenhum desses estudos mostrou com esse detalhe.
É o gap entre como CIOs e CTOs avaliam a própria TI (3,06/5) e como coordenadores da mesma organização avaliam (1,78/5). Esse gap aparece nas seis dimensões, sem exceção.
IMTIBR — Coleta 3 · 81 organizações · n=19 CIOs/CTOs, n=21 CoordenadoresO gap por dimensão: GOV +1,2 / GSV +1,5 / OPR +1,2 / SEG +1,4 / INT +1,3 / DAD +1,1. O relatório registra a única conclusão honesta possível: ou a liderança superestima a maturidade, ou os coordenadores operam uma realidade muito mais precária do que a estratégia reconhece. Os dados não permitem escolher entre as duas.
Isso é o mesmo fenômeno que a Bain chama de "ambição original não atingida" — só que medido de dentro, por dimensão, em português, com organizações brasileiras.
O vale onde as transformações morrem
Gartner e IBM identificam empresas de médio porte como as mais vulneráveis a abandonar projetos de IA após a prova de conceito. O IMTIBR mostra onde esse padrão aparece no Brasil com precisão de porte:
| Porte | N | IMTI médio | vs. média geral |
|---|---|---|---|
| Até 100 | 17 | 2,85 | +0,39 |
| 101 a 500 | 15 | 1,78 | -0,68 |
| 501 a 1.000 | 11 | 2,27 | -0,19 |
| 1.001 a 5.000 | 18 | 2,36 | -0,10 |
| Acima de 5.000 | 20 | 2,82 | +0,36 |
As três faixas entre 101 e 5.000 colaboradores ficam todas abaixo da média geral. São 44 organizações, mais da metade da amostra. A TI nessas empresas já não cabe numa pessoa só, mas ainda não tem estrutura para se organizar. O crescimento da organização superou a capacidade da TI de se estruturar. Esse padrão se repete nas três coletas, sem variação.
É o porte onde os projetos de transformação chegam com mais frequência. E onde a base para sustentá-los é mais fraca.
Quando a regulação força o que a gestão não faz sozinha
O BCG identifica governança e risco como infraestrutura de valor, não burocracia. O IMTIBR confirma isso no único setor onde a pressão regulatória é constante e severa.
Serviços Financeiros lidera o índice com 3,43/5. Segurança e Riscos nesse setor: 3,9/5, o maior score dimensional de toda a amostra. No outro extremo, Energia registra 1,68/5 com Segurança em 1,6 — setor de infraestrutura crítica, entre os mais expostos a ataques, com o pior score de segurança do índice.
O gap entre o setor líder e o último é de 2,27 pontos. É a mesma escala, o mesmo país, o mesmo período de coleta. A diferença não é orçamento. É pressão para estruturar.
O que o IMTIBR tem que os estudos globais não têm
BCG, McKinsey, Bain e Gartner trabalham com surveys de percepção de executivos. Medem se a transformação foi bem-sucedida segundo quem a liderou. São úteis para mapear tendências. Não mostram onde, dentro da operação, a base cedeu.
O IMTIBR faz perguntas diferentes. Não "sua transformação foi bem-sucedida?" Mas: "seu plano de continuidade foi testado?" "Você tem indicadores que conectam TI a resultado de negócio?" "Sua diretriz de arquitetura é formal?" São 30 práticas operacionais, não autopercepção de sucesso.
O resultado é que os dados brasileiros mostram a mesma anatomia de falha que os estudos globais descrevem, mas com detalhe que eles não conseguem oferecer: qual prática está ausente, em qual setor, em qual faixa de porte, e com qual gap entre quem decide e quem executa.
Com 81 respondentes, o IMTIBR é exploratório. Com 200, começa a ter densidade setorial real. Com 500, vira referência. O formulário está aberto em imtibr.com. Responder leva menos de dez minutos. Cada nova organização torna o retrato mais preciso.
Fontes
BCG — "Flipping the Odds of Digital Transformation Success", 2020. Survey com 825 executivos seniores e análise de 70 empresas.
McKinsey Global Survey on AI — "The State of AI", 2025. 1.491 respondentes em 101 países.
McKinsey — "Unlocking Success in Digital Transformations", 2018. 1.521 respondentes.
Bain & Company — "How to Create Value from Transformation", 2023. 400+ executivos e líderes seniores.
Gartner — Previsões sobre abandono de projetos de IA generativa pós-prova de conceito, 2024.
NBER — Working Paper sobre adoção e impacto percebido de IA, fevereiro de 2026. ~6.000 CFOs, CEOs e executivos em 4 economias.
IMTIBR — Relatório de Maturidade de TI, Coleta 3, 81 respondentes, IMTI médio 2,46/5, Abril de 2026.
Daniel Cunha é executivo de tecnologia e fundador do IMTIBR (imtibr.com), o primeiro índice independente de maturidade de TI do Brasil. Contato: contato@imtibr.com